
Porque é que o Real Madrid e o Barcelona não têm ultras? Um caso que voltou aos holofotes após os incidentes no dérbi de Madrid
No passado dia 29 de setembro, o dérbi de Madrid entre Atlético e Real foi suspenso por vários minutos durante a segunda parte. O árbitro interrompeu o jogo quando foram lançados objetos do troço do Civitas Metropolitano ocupado pela Frente Atlético, grupo ultras dos adeptos dos Colchoneros, em direção ao guarda-redes do Real Madrid, Thibaut Courtois. As imagens espalharam-se por todo o mundo, particularmente o instantâneo onde Koke é visto a discutir com um homem cujo rosto é coberto por uma balaclava. O Atlético de Madrid condenou publicamente este episódio e anunciou que tinha expulsado uma pessoa identificada por atirar objetos. No entanto, o incidente reacendeu o debate sobre a relação entre clubes espanhóis e ultras grupos, sendo a Frente Atlético um grupo de extrema-direita. A imprensa espanhola apelou a uma ação decisiva do clube, destacando também os assobios que saíram do resto do estádio no final do dérbi quando os jogadores do Atlético voltaram ao troço ocupado pela Frente para as tradicionais saudações de final de jogo. O objetivo é retirar dos estádios os ultras mais violentos, seguindo o exemplo dado pelo Real Madrid e pelo Barcelona no passado.
O caso do Real Madrid é o mais recente, relativo a Florentino Perez e à sua relação com os Ultras Sur, nome do grupo ultras que acompanhou o Real Madrid de 1980 a 2014. Trata-se de um grupo de extrema-direita com ideologias nazis que ao longo dos anos esteve envolvido em inúmeros acontecimentos notórios, o mais notável ocorrido durante a primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões de 1998 quando alguns membros do grupo escalaram as cercas metálicas, provocando o colapso de um portão, o que resultou no início do jogo mais de uma hora atrasado. Nos últimos anos, o grupo tinha sido elogiado publicamente por José Mourinho, mas em 2014, Florentino Perez tomou a decisão de retirar os Ultras Sur do Santiago Bernabeu para limpar a imagem do clube. O grupo ainda existe oficialmente e continua a pedir a demissão de Perez, mas para além de alguns incidentes isolados, não chegou às manchetes nem foi visto dentro do Bernabeu desde então. No seu lugar está agora a Grada, secção onde os adeptos só podem vestir-se de branco depois de assinarem contrato com o clube, comprometendo-se a apoiar sempre o Real Madrid sem protestar ou exibir quaisquer símbolos de ideologia política.
A expulsão dos ultras pelo Barcelona remonta a 2003, durante o primeiro mandato de Joan Laporta como presidente do clube. O grupo em causa são os Boixos Nois, também um grupo ultras de extrema-direita formado na década de 1980, que em 1991 esteve envolvido no assassinato de Frederic Rouquier, um fã do Espanyol. Segundo a visão de Laporta, os Boixos Nois tinham recebido enormes benefícios da sua relação com Josep Lluís Núñez e Joan Gaspart, os dois anteriores presidentes do Barcelona antes dele. O primeiro ato de Laporta foi cancelar todos os privilégios de que gozavam os Boixos Nois, como bilhetes de cortesia ou a sala dentro do estádio usada pelo grupo como armazenamento de banners, mas acima de tudo, armas. Tal como Pérez, ao expulsar os Boixos Nois do Camp Nou, Laporta teve como objetivo limpar a imagem do clube, já que foram os responsáveis por atirar a cabeça de porco a Luís Figo no dia em que o português regressou ao Barcelona pela primeira vez depois de ter sido vendido ao Real Madrid. A reação dos Boixos Nois à decisão de Laporta foi dura: insultos, ameaças e até uma emboscada contra o próprio Laporta, mas manteve-se firme na sua postura. Tal como Pérez, fazendo do Barcelona e do Real Madrid as únicas duas equipas espanholas sem ultras.






















































