Quem se lembra da Nike Timing? Antes do Strava era uma coisa

Até ao início dos anos 2000, as listas de desejos dos entusiastas da Nike não incluíam apenas ténis ou roupa desportiva e vestuário de estilo de vida, mas também relógios. Se, ao ler esta introdução, franziu a testa ao tentar descobrir onde nos cantos remotos da memória se escondia esta lembrança - apenas para começar a visualizar imagens que parecem um pouco familiares - provavelmente pertencemos à Geração Y, ou no máximo ao segmento mais antigo da Geração Z. Nike Timing é de facto um dos capítulos mais peculiares da história do Swoosh: enorme impacto cultural, mas memória visual surpreendentemente fraca. Por um lado porque se passaram mais de vinte anos, por outro porque essa divisão desapareceu há tanto tempo, substituída por uma miríade de dispositivos tecnológicos que a fazem sentir ainda mais distante. Mas o que era exatamente a divisão Nike Timing? E acima de tudo: quando, como e porque é que conseguiu decolar?

Foram necessários os anos 2000 — mais precisamente 2002 — para alcançar o boom definitivo da Nike no futebol. Antes dessa explosão (setor dominado na década de 1990 pela adidas e pela Umbro), a Nike já era a marca líder noutros desportos. Entre o final dos anos 80 e início dos anos 90, a corrida explodiu tanto como atividade como fenómeno cultural, e a Nike posicionou-se perfeitamente dentro deste espaço. A marca percebeu que poderia alavancar a sua força de marketing para competir com empresas especializadas em instrumentos de pulso como a Casio e a Timex, oferecendo aos atletas — desde jogging a triatlas e maratonas urbanas — apoio para monitorizar treinos: frequência cardíaca, tempos de volta, e funções de cronómetro, tudo no pulso.

A Parceria entre Nike & Seiko

Assim nasceu a divisão Nike Timing & Monitoring (mais tarde encurtada para Nike Timing). A Nike conseguiu destacar-se graças a operações de marketing altamente eficazes — mesmo sem grandes campanhas icónicas — mas sobretudo graças a um design ergonómico que tornou esses modelos diferentes de qualquer outro relógio do mercado. A Nike lidou com design, interface e funcionalidade desportiva, enquanto a produção foi confiada à gigante japonesa Seiko Instruments Inc. Através da sua colaboração com a Seiko, que fornecia circuitos de ultra-baixa potência e microelectrónica avançada, a Nike conseguiu entrar nos processos de treino e hábitos diários dos atletas. A tecnologia tornou-se assim verdadeiramente vestível: uma espécie de ancestral dos smartwatches desportivos modernos, do Apple Watch ao Garmin ou ao Suunto.

Os Modelos Mais Famosos da Nike Timing & Monitoring

Informalmente, a Nike Timing nasceu entre 1989 e 1990: os produtos foram inicialmente vendidos como Nike Sport Watch. Na linha do tempo dos relógios Nike, no entanto, há um verdadeiro ponto de viragem: a linha Triax, que inaugurou a segunda geração de relógios desportivos Nike. Antes do Triax existiam vários modelos: Nike Sport Watch, Nike Running Timer, Nike Triathlon Watch e, finalmente, Nike Coach/Nike Training Watch. Este último foi particularmente interessante porque introduziu temporizadores de intervalo e funções de repetição de rastreamento. No entanto, o avanço tecnológico não era a principal preocupação da Nike: a verdadeira questão era a ergonomia. Os investigadores da marca notaram que os atletas tinham de girar o pulso — quebrando a postura — para ler o mostrador. Observando os corredores da NCAA, os designers descobriram que muitos olhavam para o relógio com o canto do olho para não interromper o seu passo.

O Nascimento da Linha Triax

Em 1998, foi lançado o Triax, o relógio mais famoso da história da Nike. O nome deriva do ângulo de leitura tri-axial, o que significa legível a partir de três ângulos durante a corrida. Foi o primeiro produto da Nike verdadeiramente concebido em torno do movimento atlético. O Triax — resultado de uma abordagem de experiência de utilizador desenvolvida com corredores e treinadores, não relojoeiros — rapidamente se tornou um ícone pop graças ao seu preço acessível e à sua distribuição através de equipas e federações de futebol patrocinadas pela Nike: Inter, Juventus, Manchester United, Arsenal, Barcelona, Boca Juniors, Club América, Portugal e Coreia do Sul. De uma ferramenta técnica para atletas, tornou-se também um objeto de estilo de vida.

O Impacto do Timing da Nike

O impacto da linha alargou-se ao design industrial. Em 2013, Jony Ive, designer de longa data da Apple, comprou vários modelos Nike Timing — incluindo correias do Nike Presto Digital (desenhado por Scott Wilson) e algumas peças Alti-Compass da série Oregon — para estudo e investigação de produtos. Os caminhos da Nike e da Apple se cruzariam oficialmente mais tarde, mas a influência da segunda geração de relógios Nike também ajudou a inspirar a indústria tecnológica.

O Encerramento da Divisão

A Nike Timing desapareceu quando a marca percebeu que o relógio desportivo estava a tornar-se software. As necessidades dos corredores estavam a mudar: medir o tempo já não era suficiente — precisavam de dados, história e análise. Em 2012 a linha desapareceu dos catálogos, e em 2014 a Nike lançou oficialmente as suas parcerias vestíveis, optando por colaborar com a Apple em vez de competir diretamente com gigantes tecnológicas. Isto levou à criação das edições Nike Run Club e Nike do Apple Watch.

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