A nova linguagem das redes sociais do mercado de transferências de futebol Para os clubes europeus tem sido mais um verão de memes, jogos de palavras e curtas-metragens

O verão do mercado italiano de transferências de futebol terminou há duas semanas, marcado por um quadro que se tornou viral em poucos minutos e teria parecido uma fantasia impensável apenas algumas semanas antes. Apresentava Jamie Vardy, líder inesquecível dos triunfos da era Ranieri do Leicester e um “herói da classe trabalhadora” por excelência, chegando a Cremona e abraçando os seus novos fãs, apresentado como “StradiVardy”. Este tipo de anúncio ilumina feeds sociais e une todos — em parte devido à popularidade do novo número 10 do Cremonese (a propósito, o clube vendeu mais camisolas na semana seguinte à sua chegada do que em toda a temporada anterior), e em parte por causa da apresentação do clube nos seus próprios canais, homenageando a história da cidade. “StraDivardy” incorpora dois traços cada vez mais comuns na comunicação dos clubes durante o mercado de transferências: o jogo de palavras e as referências da cultura local. Cada um tem o seu próprio estilo. No passado, por exemplo, a Inter elevou o nível com mini-filmes produzidos ao lado do patrocinador Paramount, ou mais tarde Milan com uma colecção de histórias em banda desenhada. Hoje, a criatividade e o frescor que captam a atenção do público vêm de clubes mais pequenos — como o Cremonese, ou talvez mais do que qualquer outro, Génova.

Nem sempre exige uma produção de ecrã grande; na maior parte do tempo, bastam criatividade, humor, referências à cultura pop, um pouco de cultura do lixo, e piadas internas, desde que não chegue a enrugar (spoiler: às vezes é inevitável). Dito isto, o charme dos grandes anúncios offline e encontros de fãs não desapareceu. Recentemente, Roma escreveu dois capítulos inesquecíveis com o Dia Dybala no Colosseo Quadrato e a recepção de Romelu Lukaku; da mesma forma, a Fiorentina há alguns anos destacou Frank Ribéry em Artemio Franchi como uma estreia. Depois há os casos internacionais mais invulgares: o Porto ofereceu neste verão uma masterclass de anúncio à prova de spoilers, revelando Luuk de Jong ao vivo antes de um amistoso no Estádio do Dragão; ou o quase inigualável (para dizer o mínimo) caso de Arturo Vidal no Colo Colo no Chile, onde o ex-jogador da Juventus e do Inter desceu de um helicóptero em traje tradicional e andou pelo estádio a cavalo de volta.

Casos de Estudo

Tudo muito teatral, mas o atual mercado de transferências vive cada vez mais no pequeno ecrã. As apresentações de novas contratações em formatos sociais tornaram-se num festival de criação de conteúdos com códigos próprios, para os fãs que agora aguardam anúncios com a mesma emoção que antecipam estreias em campo. A apresentação de Vardy mostrou como um clube pode transformar a sua identidade numa história, com o Stradivari a transformar-se em “StradiVardy”, acompanhado por uma viagem musical pelos locais icónicos da cidade e pelo histórico Museu do Violino.

Alguns têm tornado sistemática esta gramática da comunicação, a começar por Génova, que inventou um estilo reconhecível. Uma gíria digital muitas vezes centrada em rimas e jogos de palavras, fazendo do Grifone um verdadeiro estudo de caso para os clubes da Serie A (e além), emulado em todo o lado. Alguns dos exemplos mais originais de janelas de transferência recentes incluem a apresentação no estilo Toy Story de Sebastian Otoa (Otoa Story”, completa com “Você tem um amigo em mim”) e a caixa de cereais “Cornet flakes” para Maxwel Cornet; referências do tenente Columbo para Lorenzo Colombo, Homer Simpson para Albert Gronbaek; ou “Oh-na-na, qual é o meu nome?” para Jean Onana, “The Big Ben Theory” para Ben Siegrist, e um recibo de jantar para Hugo Cuenca.

Hit após hit, e uma veia narrativa que se estende além do mercado de transferências para outros momentos da vida do clube: pense em De Winter substituindo Lewis Hamilton numa foto icónica de Maranello, ou na capa do álbum do Bad Bunny com Marassi ao fundo. Importa ainda mencionar a Udinese, apresentando Nicoló Zaniolo com o “Z” de Zorro, e Cagliari apresentando Gaetano Oristano “em Cagliari, não Oristano”; ou, seguindo a tendência das piadas geográficas, Torino postou uma salada de frutas para anunciar Eljif Elmas em janeiro passado. Nas ligas inferiores, considere o vídeo de Padova “Saturday Night Fever”, dos anos 70, com música dos Bee Gees para Papu Gómez.

Evolução e Precedentes

A evolução dos mini-filmes foi encabeçada pelo Inter, com doze episódios de “Novos Irmãos” — um para cada contratação — lançados entre 2023 e 2024. Do primeiro para Marcus Thuram (“Panther Instinct”) ao último para Davy Klaassen (“Let There Be Magic”), incluindo indiscutivelmente o melhor: “Pagine a Milano” para Davide Frattesi e “The Forbidden Gate” para Emil Audero. Ainda mais cinematográfico, se não no orçamento do que no conceito, foi o trailer de Spezia para Gianluca Lapadula, ecoando Jack Torrance em *The Shining*; ou, voltando a 2021, “Kevin is here” de Cagliari para a chegada de Strootman, referenciando *Home Alone*. Génova fechou o círculo de referências de Hollywood com o seu remake do trailer de “O Bom, o Mau, e o Feio” para anunciar Ruslan Malinovskyi em 2023. Outro tema recorrente é o jogo de palavras com nomes de jogadores: Génova, por exemplo, usou Aaron Martin ligado ao Aston Martin, e “Hapks I did it again” para Ridgeciano Hapts. Outros exemplos incluem Bolonha (Saelemaekers com foto de salamandra e música Pantera Rosa), Roma (“Todos os caminhos levam a Rom... elu Lukaku”) e Monza (o rosto de Danilo D'Ambrosio substituindo Sant'Ambrogio numa janela de igreja).

Finalmente, há os casos mínimos, falando a linguagem das piadas internas sem desperdiçar caracteres. Para o regresso de Massimiliano Allegri à Juventus e de Maurizio Sarri à Lazio, os dois clubes limitaram-se a uma imagem do Minnesota (um aceno às corridas de cavalos e ao cavalo favorito de Max) e a um emoji de cigarro (marca registada de Sarri), respetivamente. A Fiorentina, por exemplo, transmitiu a curta viagem de Parisi de Empoli a Florença com uma única foto da sua saída ao longo da estrada.

Futebol Internacional

Isto não é, obviamente, exclusivo da Itália, mas sim uma nova tendência de comunicação cada vez mais adoptada a nível mundial nos últimos três a quatro anos. Em Inglaterra, o West Ham transformou João Mario num nível de videojogos de Super Mario, enquanto mais recentemente Brighton renomeou os Simpsons* como “The Simpsons*” para apresentar Bart Verbruggen. Bristol City usou o “Wilson!” Um grito de *Cast Away* para Kane Wilson. Em França, Rennes jogou “espelho” com a origem de Nemanja Matic (Roma), encerrando uma bobina mostrando o médio sérvio a andar pela cidade com o texto “todos os caminhos levam a... Rennes”. Na Alemanha, o Bayern de Munique escolheu a autocelebração para Harry Kane, mostrando o ex-avançado do Tottenham a ver a sua própria história num cinema.

Em Espanha, há a foto “Cage in Cage” quando o atual defensor do Milan assinou pelo Villarreal. Do outro lado do Atlântico, o Flamengo (Brasil) apresentou Saul Niguez neste verão reimaginando o poster *Better Call Saul*. E, sem dúvida, existem inúmeras outras joias a descobrir mergulhando nas redes sociais dos clubes em todo o mundo e capturando as referências muitas vezes “domésticas” que dominam esses conteúdos.

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